Entrevista com a Professora Damaris Flor sobre o Método de Alfabetização Caminhos Diferentes concedida a Professora Maria dos Prazeres por ocasião da sua monografia do Curso de Pós-Graduação.
Maria dos Prazeres: – Professora Damaris Flor como se deu seu envolvimento com a alfabetização?
Damaris Flor: – Creio que minha afinidade com alfabetização se deve a cinco grandes razões. Todas ligadas a minha história de vida:
1- Nasci na década de 50 e vi meu pai, que era pastor protestante lendo frequentemente e tinha muita curiosidade pra saber o que eram aqueles pontos pretos nas páginas.
2- Com seis anos não pude ir à escola com meus dois irmãos mais velhos por falta de recursos financeiros. Minha mãe que só conhecia as letras assumiu o compromisso de me ensinar em casa. Mas ela só sabia até o BÊ a BA e o resto eu desenrolei sozinha na Carta de ABC.
3- Na década de 60 com 12 anos, dominando a leitura impecavelmente assumi uma sala de alfabetização em uma escola comunitária muito carente em Casa Amarela – Recife.
4- Na década de 80, sofri uma catástrofe familiar e perdi meus 3 filhos durante oito anos e na ausência total dos meus filhos fiquei sensível ao choro de criança e não queria ver meus alunos sofrendo e chorando para aprender a ler. Palmilhei todas as dicas que eles me forneceram. Tornei-me aluna deles e daí nasceu Caminhos Diferentes para Alfabetização.
5- Da década de 80 até a data presente, meu entusiasmo com alfabetização cresceu e cresceu tanto que me tornei pesquisadora da área. E inevitavelmente esbarrei na área de neurociências na medida em que procurava saber como o cérebro funciona na produção da leitura e da escrita. Mas eu só queria que a garotada aprendesse sem perder a autoestima e felicidade. O resto aconteceu inusitadamente.
Maria dos Prazeres: – Professora Damaris como se define a Pedagogia que a Senhora mesmo criou e denominou Caminhos Diferentes para Alfabetização?
Damaris Flor: – A Pedagogia Caminhos Diferentes para Alfabetização é uma metodologia neurodidática que consiste em um encontro didático entre alfabetização e neurociências na busca pela melhor forma de encaixe da produção da leitura no cérebro. É a ergonomia na aquisição da leitura e da escrita.
Maria dos Prazeres: – Professora Damaris fale um pouco sobre as bases neurocientíficas da alfabetização neurodidática.
Damaris Flor: – Estou comprometida com a busca das bases neurocientíficas dessa metodologia. Não é uma tarefa fácil. Exige muito estudo e pesquisa. Necessito de ajuda de neurocientistas para identificá-las, no entanto já começo a levantar algumas hipóteses com fundamento no que venho lendo em neurociências, conforme abaixo descrito.
1a-O cérebro do alfabetizando trata as palavras como se fossem desenhos e usam pistas contextuais em vez de decodificação alfabética
1b-Caminhos Diferentes têm 30 REFERÊNCIAS LINGUÍSTICAS formando escrita logográfica e ideográfica constituída por desenhos para representar as partes gerais e específicas da leitura e escrita.
2a-O cérebro responde, devido a sua herança primitiva, às gravuras, imagens e símbolos.
2b-Caminhos diferentes têm 30 REFERÊNCIAS LINGUÍSTICAS formadas com imagens que recorre ao arquivo químico-neural de imagem do alfabetizando para representar palavra, letra, sílaba, sons.
3a- O cérebro promove situações em que aceita tentativas e aproximações ao gerar hipóteses e apresentação de evidências.
3b-Caminhos Diferentes têm 30 REFERÊNCIAS LINGUÍSTICAS que por analogia e aproximação que constroem letras, sons, sílabas e palavras.
4a-O cérebro do alfabetizando mobiliza os neurônios do lobo parietal para visualização, os neurônios do lobo occipital para coordenar e reconhecer os objetos e o reconhecimento da palavra escrita, os neurônios do lobo temporal para perceber e identificar os sons e reconhecê-los por completo e os neurônios do lobo temporal verbal para produzir os sons para que possamos fonar as letras. O cérebro reage aos estímulos do ambiente, ativando sinapses constituindo circuitos neurais que processam as informações recebidas de seus alfabetizadores e do meio externo como um todo, armazenando-as molecularmente.
4b-Caminhos Diferentes têm suas 30 REFERÊNCIAS LINGUÍSTICAS que são estímulos externos para mobilizar os neurônios específicos a fazerem sinapses e armazenar as informações recebidas e auxiliar no processamento da leitura e da escrita.
Maria dos Prazeres: – Professora Damaris Flor sintetize a dinâmica da pedagogia Caminhos Diferentes para alfabetização?
Damaris Flor : Caminhos Diferentes para Alfabetização tem 3 fases: A referencial, a estrutural e a continuada. Na referencial representamos letras, sílabas e palavras com desenhos. Na fase estrutural retiramos os desenhos e a língua assume sua forma clássica e na fase continuada inserimos noções de gramática.
Maria dos Prazeres: – Professora Damaris Flor como a senhora avalia o processo de alfabetização em nível nacional?
Damaris Flor : Os municípios brasileiros enfrentam o desafio do analfabetismo escolar. O MEC através do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, constatou o fenômeno do analfabetismo escolar, ou das crianças que freqüentam a escola, mas não aprendem e vem aumentado a pressão sobre os municípios para melhorar a educação fundamental. Os últimos números mostram que a expansão do acesso não se traduziu em qualidade da educação e no final de setembro 2008 divulgou que dos 1,3 milhão de crianças entre 8 e 14 anos que não sabiam ler nem escrever no ano passado, 1,1 milhão (84,5%) estavam na escola.FFonte- BBC Brasil em 02/10/2008: site http://www.votebrasil.com/noticia/politica/municipios-enfrentam-desafio-do-analfabetismo-escolar. Esses índices me deixam extremamente infeliz por não poder auxiliar essa meninada a aprender a ler. Sinto-me como se tivesse a cura para o câncer e por questões políticas e mudanças de paradigmas científicos não pudesse fornecer o remédio tendo que presenciar a morte pela ausência do remédio.
Maria dos Prazeres: – Professora Damaris Flor o que a senhora espera para o futuro da alfabetização no Brasil?
Damaris Flor: Espero que as contribuições advindas de pesquisas das neurociências e dos cursos de graduação e Pós-graduação, sejam uma grande oportunidade para apresentar novos paradigmas para alfabetização e que efetivamente possamos interferir na erradicação do analfabetismo escolar.
Damaris Flor 29 de outubro de 2009.
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